Urubu malandra

um respiro, um horizonte, uma brisa

25 Novembro, 2009






Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar para poder voltar sempre inteira.


Cecília Meireles



Foto: Das coisas surpreendentes. Florianópolis.

18 Novembro, 2009

sempre




Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago... - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia.


Guimarães Rosa


Foto: Das coisas aladas. Praia da Daniela. Florianópolis.

* meu pai, cuja largura do tempo nos afasta... amanhã: 3 anos...

nestes últimos dias arrumamos a casa da praia: as paredes foram pintadas, as madeiras... havia um desenho teu guardado da casinha de bonecas da Piu, teus óculos ainda estão na gaveta ao lado do aplicador de insulina, a casinha de passarinhos amarela que fizemos juntos, ... estar aqui é quase sentir um carinhoso abraço, daqueles que nunca demos.

12 Novembro, 2009

incondicional



não me queiras bem ou mal
por uma pétala
por um gesto a mais ou um deslize
quere-me pelo todo
corola miolo haste folhas
cor espinhos pólen
perfume

raízes



líria porto
Foto: Das coisas delicadas. Cacupé. Florianópolis.

10 Novembro, 2009

o que conta


(...)


"O que conta é o que somos, é aprofundar a própria relação com o mundo e com o próximo, uma relação que pode ser concomitantemente de amor pelo que existe e de vontade de transformação. Depois colocamos a ponta da caneta no papel em branco, estudamos certa angulação da qual saem sinais que têm sentido, e vemos o que sai dali. (Não raro, também se rasga tudo.)"


Italo Calvino


Foto: Das coisas iluminadas. Cacupé. Florianópolis.

07 Novembro, 2009

Destino

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora que mais
me poderei vencer?



Mia Couto


Foto: Longe, muito longe. Cacupé. Florianópolis.

05 Novembro, 2009





(a aranha ateia
diz ao aranho na teia:
o nosso amor
está por um fio!)




Mia Couto

Foto: Das coisas leves. Freeway. RS.

26 Outubro, 2009

Para a minha filha


Dai-me outra vida e estarei no Caffè Rafaella
a cantar. Ou estarei sentado a uma mesa,
simplesmente. Ou de pé, como um móvel no corredor,
caso essa vida seja menos generosa que a anterior.

Contudo, em parte porque nenhum século daqui em diante
conseguirá passar sem jazz nem cafeína, aguentarei esse desplante,
e pelas minhas rachas e poros, verniz e todo de pó coberto,
observarei, daqui a vinte anos, como a tua flor se terá aberto.

De um modo geral, lembra-te de que estou por ali. Ou melhor, que
um objecto inanimado pode ser o teu pai, sobretudo se
os objectos forem mais velhos do que tu, ou maiores. Não
os percas de vista, pois, sem dúvida, te julgarão.

Seja como for, ama essas coisas, haja ou não encontro.
Além disso, pode ser que ainda te lembres duma silhueta, dum contorno,
ao passo que eu até isso perderei, juntamente com a restante bagagem.
Daí estes versos, algo toscos, na nossa comum linguagem.


Joseph Brodsky

Foto: Florescências. Gramado. RS.

09 Outubro, 2009

para ver as meninas



Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim

Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor
assim descontraído

Quem sabe de tudo não fale
Quem não sabe nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito

Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito



Paulinho da Viola
Foto: Chegadas e partidas. Florianópolis. 1989.

05 Outubro, 2009

ainda que pareça tarde


E ainda pareça tarde, ou que não seja, tanto faz se há luz e se o sol brilha nas manhãs em algum lugar: é para lá que irei! Mesmo longes, restam caminhos. Não tantos quanto sonhei, mas tantos quanto possíveis. E os possíveis só se dão na realidade: porque ela é bruta. Por isso que se lapida: porque ela é bruta!

E ainda que cansada não posso parar, não podemos, e só nos movemos se temos um norte ou mesmo um sul, qualquer ponto que não esse em que já estamos, senão morremos, sim, morremos, e há tantas formas de morrer mesmo que vivos.

Erguer a cabeça, olhar pra frente, pras coisas, pros outros, juntar os membros e sonhos espalhados, levantar! E mesmo que seja doloroso (porque é, apesar de simples), e mesmo que seja terrível (porque é, apesar de belo), e mesmo que sejamos tão outra coisa do que desejávamos, vale viver - eu lhes digo - porque não estamos sozinhos, não estamos: basta estender os braços

ainda que pareça tarde.

Para você, Pedro, sobrenome 'Esperança', que sempre está aqui.
Foto: Pequeno guerreiro. Santo Antônio de Lisboa. Florianópolis.

24 Setembro, 2009

poeminhas



Sim, vejo poemas
e ando pelas ruas a rasurar
letras em meu peito de neve
a buscar algo que me leve, leve

Sim, vejo poemas
em gestos olhares silêncios
fotos fios-de-luz filhos
buzinas semáforos andarilhos

Sim, vejo poemas
nos céus de cada dia
gotas de chuva sol bruma do mar
em cada verde há poemas, sabia?

Sim, vejo poemas
nos aromas de chá
espuma de banho café-com-pão
tua mão na minha mão

Sim, vejo poemas, amor
mas sinto na carne a realidade bruta
o olhar duro a palavra crua
a ferida que arde sob a pele nua

e minha mão na tua

Foto: O beijo. Campeche. Florianópolis.
Dois anos, hoje.

19 Setembro, 2009

Beautiful day


The heart is a bloom, shoots up through the stony ground
But there's no room, no space to rent in this town
You're out of luck and the reason that you had to care,
The traffic is stuck and you're not moving anywhere.
You thought you’d found a friend to take you out of this place
Someone you could lend a hand in return for grace

It's a beautiful day
The sky falls and you feel like it's a beautiful day
Don’t let it get away

You’re on the road but you've got no destination
You’re in the mud, in the maze of her imagination
You love this town even if that doesn't ring true
You’ve been all over and it’s been all over you

It's a beautiful day
Don't let it get away
It's a beautiful day

Touch me
Take me to that other place
Teach me
I know I'm not a hopeless case

See the world in green and blue
See China right in front of you
See the canyons broken by cloud
See the tuna fleets clearing the sea out
See the bedouin fires at night
See the oil fields at first light and,
See the bird with a leaf in her mouth
After the flood all the colours came out

It was a beautiful day
Don't let it get away
Beautiful day

Touch me
take me to that other place
Reach me
I know I'm not a hopeless case

What you don't have you don't need it now
What you don't know you can feel it somehow
What you don't have you don't need it now
You don't need it now

Was a Beautiful day...


U2
Adam Clayton / Bono Vox / Larry Mullen Jr. / The Edge

Foto: Reflets Dans L'eau. Florianópolis.

11 Setembro, 2009

carta de amores


Cheguei do centro em meio aos ventos e à chuva fina que caía final da tarde. Enquanto caminhava pelas ruas da cidade respirava o ar gelado, desviava dos passantes apressados, das sombrinhas, das ofertas nas vitrines. é tudo sempre tão velho e novo e eu viva e ali: não é um milagre?

não falo de milagres divinos, mas dos terrenos. nas centenas de pequenas maravilhas que acontecem e que raramente percebemos, tal sua simplicidade. respirar é uma delas. olhar o horizonte. ouvir um pássaro. caminhar. sentir a brisa. olhar um filho dormindo. beijar a boca amada. ler um livro instigante. escrever. cozinhar. tantas as coisas são.

muitas vezes ia para casa - quando morava na praia e minha filha era pequenina - e ao descer do ônibus era abraçada pelo aroma dos jasmins ou damas-da-noite. a estrada ainda era de areia e o cheiro da terra seca depois do sol se condensava às flores e ao mato orvalhado. ao longe o marulho das ondas. aquilo era alegria.

no trajeto colhia, ao largo da estrada, minúsculas flores amarelas, lilases, rosas e capins que cresciam a revelia , e compunha pequeninos ramalhetes para minha fadinha, minha princesa ou minha rainha. aquilo era saudade.

ao vir do centro hoje, depois de sondar meus abismos e falar com meu lindo tão distante ao celular, meu coração fremia, meus passos perdiam-se nas calçadas e havia quase lágrimas. mudei o rumo em meu peito, depois comprei três cookies, duas lâmpadas, dois blocos de anotações e me abri para o frescor dos ventos e da chuvinha. muitos futuros há em cada gesto. isso é amor: essas coisas belas e generosas, esses pequenos milagres.

Foto: Pequeninas. Jardim de casa. Campeche. Florianópolis

09 Setembro, 2009

Up!



Agora preciso de tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: Por amor.


Clarice Lispector

Ilustração: UP

Numa noitinha adorável, assisti com meus Fófis esta deliciosa e onírica animação em 3D!

Em momentos assim viro criança, uma que nem fui...

08 Setembro, 2009

só a poesia





Em certos períodos da história, só a poesia é capaz de lidar com a realidade, condensando-a e transformando-a em alguma coisa compreensível, em alguma coisa que de outra maneira não poderia ser apreendida pelo espírito.


Joseph Brodsky

"Menos que um - ensaios"
Foto: Composição em azul e rosa sobre terra e vida. Campeche. Florianópolis.

06 Setembro, 2009

a word is dead



A word is dead
When it is said
Some say
I say
It just begins
To live
That day


Emily Dickinson

...
Uma palavra morre
Quando falada
Alguém dizia
Eu digo que ela nasce
Exatamente
Nesse dia

Tradução: Idelma Ribeiro de Faria
Foto: Veloxx. Em algum lugar on the road entre SC e RS: indo.
Vitor Ramil musicou esta poesia em seu CD "Satolep Sambatown"... ouça...

04 Setembro, 2009

Amber



Brainstorm, take me away from the norm
I got to tell you something
This phenomenon,
I had to put it in a song
And it goes like

Whoa, amber is the color of your energy
Whoa, shades of gold displayed naturally
You ought to know what brings me here
You glide through my head blind to fear
And I know why

You live too far away
Your voice rings like a bell anyway
Don't give up your independence
Unless it feels so right
Nothing good comes easily
Sometimes you gotta fight
Launched a thousand ships in my heart
So easy, still it's fine from afar
And you know that

Whoa, brainstorm take me away from the norm
Whoa, I got to tell you something

Brainstorm, take me away from the norm
I got to tell you something
This phenomenon, I had to put it in a song
And it goes like


Whoa, amber is the color of your energy
Whoa, shades of gold displayed naturally

You ought to know what brings me here
You glide through my head blind to fear

And I know why
You live too far away
Your voice rings like a bell anyway
Don't give up your independence
Unless it feels so right
Nothing good comes easily
Sometimes you gotta fight
Launched a thousand ships in my heart
So easy, still it's fine from afar
And you know that

Whoa, brainstorm take me away from the norm
Whoa, I got to tell you something


311

Foto: Teu Amor-perfeito. Jardim de minha casa. Campeche. Florianópolis.

27 Agosto, 2009

Identidade


Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço



Mia Couto
Foto: Das flores improváveis. Gramado. RS.

22 Agosto, 2009

mira la luna



- Tienes que parar con eso de ser astronauta, niño! Eso no te va llevar a nada!

- Como no me vá llevar a nada? Me vá llevar a la luna!!



Fala do menino Rodrigo Noya no filme "Valentin", de Alejandro Agresti


Ilustração: Macanudo. Por Liniers.

21 Agosto, 2009

um dia



Um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia.


Clarice Lispector

18 Agosto, 2009

Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida


Mia Couto
Foto: Primeiro encontro. Campeche. Florianópolis.

14 Agosto, 2009

o acendedor dos dias

Súbito raio desperta-o toda madrugada, uma densidade de brumas e oceano. Ele permanece no leito, coberto de estrelas. Sua respiração move a brisa.

O raio redesenha a ruga entre as sombrancelhas e clareia a íris âmbar. O frescor da rua chama na vidraça, uma luminosidade tênue se esgueira pelas frestas da cortina. De olhos cerrados esboça idéias, projetos, cálculos, sons, desejos, linhas, ...

E assim, a cada alvorada, a vida, apaixonada, sopra seus sonhos e convida-o pra dança. Ele é infinito demais para a pequenez da noite. Quando abre as pálpebras, acorda o sol.


Claudia Félix


Ilustração: Je t'aime. Cathy Delanssay.

12 Agosto, 2009

ausência




... olhava no espelho aquela que eles viam: não era eu; estava ausente, ausente de toda parte: onde me encontrar? Enlouquecia. `Viver é mentir', pensava, sucumbida; em princípio nada tinha contra a mentira, mas praticamente era esgotante fabricar incessantemente máscaras para mim.



Simone de Beauvoir

Foto: Leia-me. Centro. Porto Alegre. RS.

11 Agosto, 2009

puente








Quadrinho: Éden. Por Kiokersman.

06 Agosto, 2009







Enquanto o céu azulzinho do fim da tarde avermelhava, em meu peito uma despedida silenciosa e âmbar se fundia ao cinza do vento frio e secava em meus olhos uma gota verde-água não caída:
a que espera a vi(n)da.



Desenho: 'Macanudo' por Liniers. http://www.porliniers.com

01 Agosto, 2009

meu sobrinho que cresce



se pudesse traduzir a luz de teus olhos pequeninos e entendido a dor que escondias, ainda menino

se pudesse ter te abraçado quando as rajadas de todas as armas se precipitaram em tua direção. não aceito, é certo, que a vida pode ser assim dura com crianças, tão puras

se pudesse beijar tua face distante hoje, em teu aniversário: agora cresces, amore mio e paramos de medir teu tamanho na parede do quarto em 1,20m. agora cresces e vives a vida possível

se pudesse hoje estaria olhando teu rosto redondo e sorridente e ouvindo tua voz cristalina nesta madrugada fria do outro lado do mundo, e correndo de mãos dadas, enfrentando dragões e monstros de mentirinha, nós: dois valentes treme-treme! e virando samurais e fazendo montinho na Piu e pulando no sofá e escorregando de meia no assoalho e nos escondendo da vovó e dançando na frente do espelho, tantas coisas ainda. tentarias me explicar inutilmente teus mangás e eu contaria minhas piadas sem graça que só tu acha alguma graça. te falaria de existencialismo e cores, de filmes e amores. atravessaríamos as nuvens e jogaríamos vídeo-game e te leria livros pra sonhares feliz por não dormir só e eu velaria teu sono

se pudesse te daria toda delicadeza das flores e doçura das frutas e alegria de músicas, se pudesse te envolveria para sempre em meu abraço seguro, quente, sincero

se pudesse ouvir teu riso pela casa pela rua, teus resmungos e chatices, a ramela matutina, a vida aqui seria só guisos, festas e algazarras: seria mais viva!

há saudade de tudo que foi, que não foi, que será. Deste mundo, amore mio, a vida te deve muita felicidade

este amor que te dou é um elo eterno e verdeiro, não é de vidro. estarei aqui e aí a teu lado hoje e sempre. O que realmente importa, amore mio, é o que ainda podemos e faremos: o futuro é um campo verde e ensolarado, aberto a nossa frente!

Tua tia Dadinha


Foto: Fome de viver. By Poeminha. Florianópolis.

IV

não te encontro porque não és


o medo te fez a negação de ti mesma
já nasceste entre paredes absurdas
estás perdida no escuro
suspensa no vácuo
não ouves nem mesmo teu grito
a casa é toda silêncios
teus pés não tocam tua essência


caminhas sempre no pátio impossível
do ser que não és


Pedro Bertolino
Foto: Os caminhantes. Beira-mar. Florianópolis.

24 Julho, 2009

consegue ver?




.
.
.










Foto: Coelhinho. Campeche. Florianópolis.

21 Julho, 2009

Soneto del camino

No es fácil saber cuál es el camino
que nos lleva hasta el mar de la utopia
sin contar con la lámpara de un guía
surgido en algún cruce del destino

el azar no es humano ni divino
pero más de una vez nos desafía
entonces hay que usar la valentía
y enfrentralo con música y con vino

cada senda se orienta y nos orienta
guarda un poco de alma para luego
y agua también para la fe sedienta

ah pero en el destino hay travessura
y como nadie entiende de ese juego
el camino se pierde en la espesura


Mario Benedetti
Foto: Alguém. Pântano do Sul. Florianópolis.

14 Julho, 2009

...se nos banhamos assim no futuro...

Tentai apreender a vossa consciência e sondai-a. Vereis que está vazia, só encontrareis nela o futuro. Nem sequer falo dos vossos projectos e expectativas: mas o próprio gesto que surpreendeis de passagem só tem sentido para vós se projectardes a sua realização final para fora dele, fora de vós, no ainda-não. Mesmo esta taça cujo fundo não se vê - que se poderia ver, que está no fim de um movimento que ainda não se fez -, esta folha branca cujo reverso está escondido (mas poderia virar-se a folha) e todos os objectos estáveis e sólidos que nos rodeiam ostentam as suas qualidades mais imediatas, mais densas, no futuro.

O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente? O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro. E, para explicar o próprio passado, não será a primeira tarefa do historiador procurar o futuro?


Jean-Paul Sartre, in 'Situações I'
Foto: Porvir. Cacupé. Florianópolis.

10 Julho, 2009

em nossas mãos


É verdade que as divisões brutais e suas consequências teóricas (apodrecimento da ideologia burguesa, interrupção provisória do marxismo) obrigam a nossa época a se fazer sem se conhecer, mas, de outro lado, ainda que soframos mais do que nunca suas pressões, não é verdade que a História nos apareça totalmente como uma força estranha. Ela se faz cada dia por nossas mãos diferente do que acreditamos fazê-la e, por um imprevisto movimento de retorno, nos faz diversos daquilo que acreditamos ser ou tornar-nos; e, entretanto, ela é menos opaca do que foi...


Jean-Paul Sartre - Questão de método

08 Julho, 2009

Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar.

Clarice Lispector

Foto: Tua. Florianópolis.

07 Julho, 2009

réquien

dorme tio Nêne
a Cuca não vem pegar
é noite e agora
faz frio e não demora
a vida e é hora
de descansar


Claudia Félix

01 Julho, 2009

corações tímidos




olhavas as flores
as flores me olhavam

silêncio perfumado
o dos grandes amores
aqueles que cabem
nas rosas


líria porto

Foto: Gentleman. Porto Alegre. RS.

29 Junho, 2009

João e Maria



Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

Chico Buarque

Foto: O mar, a ilha, um pirata ao longe e o destemido herói. Caminho dos Açores. Florianópolis.

25 Junho, 2009

Roda viva


Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir

Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

Chico Buarque
Foto: Rodavida. Imbé. RS

08 Junho, 2009

Por un beso


Casa diurna calle nocturna
Los músicos de la calle
Todos tocan y siguen tocando
Bajo lo oscuro vemos claro

Lámpara llena de ojos nuestros
Habitamos en nuestro valle
Nuestros muros flores y sol
Nuestros colores nuestra luz

La capital del sol
Es el reflejo de nosotros
Y en el asilo de estos muros
Nuestra puerta es la de los hombres.


Paul Éluard

Foto: Pela vida com você. Caminho dos Açores. Florianópolis.

04 Junho, 2009

elos






a palavra é ponte
entre mim e o mundo
para atravessá-la
posso demorar

ela é sobre o mar


Líria Porto



Foto: O vento. Praia da Solidão. Florianópolis

21 Maio, 2009

E o tempo tomou forma.
Assim me soube
Envolta em grande mar até a cintura
E nada a não ser água e seu rumor
Aos ouvidos chegava.
E soube ainda
Que um só gesto e sopro acrescentava
Essa vastíssima matéria.
E atenta
Em consideração a mim, cobri-me de recuos.
Eu, que de docilidade me fizera.
Antes avara desse tempo que resta.
Se em muitos me perdi, uma que sou
É argamassa e pedra. Guardo-te a ti.
Em consideração a mim. Redescoberta.



Hilda Hilst

Foto: Reflexão com ponto de fuga. Campeche. Florianópolis.

20 Maio, 2009

Perda






No templo há uma poesia chamada "Perda" entalhada na pedra. Ela consiste de três palavras que foram rasuradas pelo poeta. Ninguém pode ler a "Perda":
só senti-la.


Do filme "Memórias de uma gueixa"



Foto: Infinitivo. Campeche. Florianópolis.

18 Maio, 2009

luto y nieve


Palabras hay que llegan con su luto
tanbién otras que llegan con su nieve
el lenguage que va cortando el aire
es un arma del tiempo o de la suerte

hay un río verbal con dos orillas
que transcurre deshilachadamente
y aunque nadie lo asume es un dialecto
que dice cosas cuando todos duermen

hay un vocabulario misterioso
que crea voces y pese a quien pese
nos penetra con o sin fundamento
y en el pozo del alma se sumerge

hay palabras que llegan consu luto
en cambio ya no vemos las de nieve
la tristeza a hurtadillas nos vigila
y su silencio cândido estremece

el bosque nos desvela con su sombra
y es poco lo que el mundo nos promete
se van los pajaritos e las nubes
y nos quedamos solos como siempre


Mario Benedetti
Foto: Mario Benedetti. Copiada da internet.

...

Obrigada por tua vida, tua luta, tuas palavras:
belas ou duras, honestas ou sonhadoras - sempre perfeitas!
Obrigada sobretudo por tua sincera e profunda humanidade, nuestro Benedetti.

... e lá se vai você, com os passarinhos e as nuvens ...
Até sempre, poeta!

antes a vida

Antes a vida que estes prismas sem espessura mesmo se as cores são mais puras
Antes ela que esta hora sempre enevoada estas terríveis carruagens de labaredas frias
Estas pedras sorvadas
Antes este coração engatilhado
Que este charco de murmúrios
Este pano branco a cantar ao mesmo tempo na terra e no ar
E esta bênção nupcial que une o meu rosto ao da total fatuidade
Antes a vida
Antes a vida com os seus lençóis de esconjuro
As suas cicatrizes de fugas
Antes a vida antes esta rosácea no meu túmulo
A vida da presença só da presença
Onde uma voz diz Estás aí e a outra responde Estás aí
Eu pobre de mim não estou
E mesmo quando jogarmos ao que fazemos morrer
Antes a vida
Antes a vida antes a vida Infância venerável
A faixa que parte dum faquir
Parece o escorregadouro do mundo
Não importa que o sol não passe de um destroço
Por pouco que o corpo da mulher se lhe compare
Pensas tu ao contemplar a extensão da trajetória
Ou tão-só ao fechar os olhos sobre a tormenta adorável que se chama a tua mão
Antes a vida

Antes a vida com as suas salas de espera
Mesmo sabendo não ir entrar nunca
Antes a vida que estas estâncias termais
Onde o serviço é feito por coleiras
Antes a vida adversa e longa
Quando aqui os livros se fecharem sobre estantes menos suaves
E lá longe fizer mais que melhor fizer livre sim
Antes a vida

Antes a vida como fundo de desdém
A esta cabeça já de si tão bela
Como antídoto da perfeição aspirada e temida
A vida a maquilagem de Deus
A vida como um passaporte virgem
Ou uma vilória como Port-à-Mousson
E como tudo foi dito já
Antes a vida


André Breton

Foto: Um dia para lembrar. Santo Antônio de Lisboa. Florianópolis.

16 Maio, 2009

faz frio

hoje faz frio
em meu peito vazio
abismos me sondam
dois raios sombrios
não sei mais quem sou
quem fui
serei
onde levarão meus passos
cansei

hoje faz frio
em meu sonho vazio
vestida de tempestades
réstias de luz
descubro-me nua
quase neva na lua
quem sou
fui
serei
nada mais sei

há apenas esse frio
em meu quarto vazio


Claudia Félix

grito mudo

está quieto agora
todos dormem, é tarde
os lixeiros já passaram
não há grilos na cidade
uma estrela brilha muda
não há vento nem chuva

está quieto agora
não ouvi mais tua voz
teu olhar, teu celular
apaguei a TV, o som
liguei o computador
nenhuma mensagem
a cama me espera
o sono não

está quieto agora
lá fora



Claudia Félix

Pintura: O quarto de Van Gogh. By Van Gogh.
(Copiada da internet)

15 Maio, 2009

intimidade




em seu regaço eu me aninho
igual água do regato
e escorro e escorrego
criança descalça
em seu limo




Líria Porto


Foto: Aquarelada. Rancho Queimado.

12 Maio, 2009

Ordem e turbulência do amor

Para começar citarei os elementos
A tua voz os teus olhos as tuas mãos os teus lábios

Eu vivo sobre esta terra e pergunto-me
Se nela viveria se tu nela não estivesses também

Neste banho postado em face
Do mar de água doce

Neste banho que a chama
Edificou nos nossos olhos

Este banho de lágrimas jubilosas
Em que penetrei
Pela virtude das tuas mãos
Pela graça dos teus lábios

Este estado humano primordial
Como uma pradaria dos começos

Os nossos silêncios as nossas palavras
A luz que se vai
A luz que de novo volta
A aurora e o crespúsculo fazem-nos rir

No cerne do nosso corpo
Tudo se torna flor e amadurece

Sobre a palha da tua vida
Onde deito a velha carcaça

Em que me tornei por fim.


Paul Éluard

Foto: Longes. Urubici.

bliss

bliss. from 4khz on Vimeo.


Quando a praia ficava no fim de minha rua, nas épocas mais tristes, costumava sair pelos dias e ver a vida em cada coisa ensolarada. No fundo do fundo tudo que é vivo se alimenta de luz!

Claudia Félix

08 Maio, 2009

Soneto II



Amor, cuántos caminos hasta llegar a un beso,
qué soledad errante hasta tu compañía!
Siguen los trenes solos rodando con la lluvia.
En Taltal no amanece aún la primavera.

Pero tú y yo, amor mío, estamos juntos,
juntos desde la ropa a las raíces,
juntos de otoño, de agua, de caderas,
hasta ser sólo tú, sólo yo juntos.

Pensar que costó tantas piedras que lleva el río,
la desembocadura del agua de Boroa,
pensar que separados por trenes y naciones
tú y yo teníamos que simplemente amarnos,
con todos confundidos, con hombres y mujeres,
con la tierra que implanta y educa los claveles.


Pablo Neruda - Cien sonetos de amor


Foto: Esperando o beija-flor. Rancho Queimado.

imperfeita


beiro abismos
que não vi
onde estará o sonho
onde está a vida
onde estava o caminho

perdi



Claudia Félix

29 Abril, 2009

Futuro

Con un cauce más bien desconocido
el futuro es un río de futuros
cada día que pasa es un quién sabe
donde lo venidero sigue oculto

en el futuro hay una pregunta
pendiente de recónditos ayeres
donde el filtro cabal de la consciencia
espera las respuestas de la gente

hay que hacer lo posible y lo imposible
para que la esperanza no se extinga
ella es la clave de cualquier mañana
y hay que cuidarla como un salvavidas

el futuro hace sombra en el aire
y tanbién hace luces en la tierra
lo esperamos fervientes y descalzos
con una expectativa sin cadenas

el futuro / suelto y deseoso
de que lo introduzcamos en un libro
y desde allí enseñarnos los secretos
para querer y para ser querido


Mario Benedetti ***

Foto: Una esperanza. Lagoa da Conceição. Florianópolis.

*** Hoje li uma mensagem de meu amigo uruguaio Martín avisando que nosso querido Mario Bendetti fora internado dia 28 de abril em estado grave num hospital em Montevidéu! Escrevi este post com o coração apertado, tal qual oração de criança, desejando que Mario se recupere logo, pois com ele nos trará tantos futuros generosos, aqueles que escreverá em novos livros, para nos ensinar os segredos para quereres e para serem queridos...

28 Abril, 2009

Balada da irremediável tristeza


Eu hoje estou inabitável...
Não sei por quê,
levantei com o pé esquerdo:
o meu primeiro cigarro amargou
como uma colherada de fel;
a tristeza de vários corações bem tristes
veio, sem quê, nem por quê,
encher meu coração vazio...vazio...
Eu hoje estou inabitável...

A vida está doendo...doendo...
A vida está toda atrapalhada...
Estou sozinho numa estrada
fazendo a pé um raid impossível.

Ah! se eu pudesse me embebedar
e cambalear...cambalear...
cair, e acordar desta tristeza
que ninguém, ninguém sabe...
Todo mundo vai rir destes meus versos,
mas jurarei por Deus, se for preciso:
eu hoje estou inabitável...



Abgar Renault

Foto: Para curar olhos cansados. Campeche. Florianópolis.

25 Abril, 2009

Como um sonho


Ontem de noite, com a chuva e o vento forte
O sono não conseguiu dissipar minha embriaguez.
Eu pergunto então àquela que enrola a cortina
E ela responde, o gerânio continua igualzinho.
Ela sabe?
Sabe mesmo?
Se reparasse, veria que o verde estaria mais denso
e o vermelho, mais tênue.


如梦令

昨夜雨疏风骤,
浓睡不消残酒。试问卷帘人,
却道海棠依旧。知否?
知否?
应是绿肥红瘦。



Li Qingzhao

Foto: Paleta de artista. Buenos Aires.

* Tradução de Sérgio Capparelli e Wu Di


Sim.
Todos os poemas
São de amor
Pela rima,
Pelo ritmo,
Pelo brilho
Ou por alguém,
Alguma coisa
Que passava
Na hora
Em que a vida
Virava palavra.


Alice Ruiz

Foto: Teus passos líquidos. Rancho Queimado.

23 Abril, 2009

não sei se é assim com todos



Um dia, eu já tinha uma certa idade, no hall de um prédio público, um homem veio até mim. Ele se apresentou e me disse: "Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que a senhora era bonita quando jovem. Eu vim lhe dizer que, para mim, a senhora é mais bonita agora do que quando era jovem. Gosto menos de seu rosto de moça do que desse de hoje, devastado. (...)

Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Entre dezoito e vinte e cinco meu rosto seguiu uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com todos, nunca perguntei.


Marguerite Duras - "O amante"

Foto: É preciso, pá, navegar. Pântano do Sul. Florianópolis.

Mudar de casa


É bom mudar de casa, de janela,
arrumar de outra maneira as ilusões,
tratar de coisas puras como tintas
e sofás, pôr ordem entre os livros
e a vida, simular a liberdade.
Parece-nos possível voltar a acreditar
na mão que nos estende um pé de salsa,
na pechincha da beleza,
quando passa
no poente da razão.
Apetece cometer uma loucura,
comprar um telescópio, decorar
o canto nono dos Lusíadas,
subir umas escadas do avesso,
pensar que nunca mais teremos frio.


José Miguel Silva
Foto: Projetos possíveis. UFSC. Florianópolis.

17 Abril, 2009

as cartas de amor


As cartas de amor

deveriam ser fechadas
com a língua;
Beijadas antes de enviadas.
Sopradas.
Respiradas.
O esforço do pulmão
capturado pelo envelope,
a letra tremendo
como uma pálpebra.
Não a cola isenta, neutra,
Mas a espuma, a gentileza,
a gripe, o contágio.
Porque a saliva acalma
um machucado.

As cartas de amor
deveriam ser abertas
com os dentes.



Fabricio Carpinejar


Foto: Quando voltava da aula de fotografia e olhei para o céu. UFSC. Florianópolis.

15 Abril, 2009


a noite - enorme

tudo dorme
menos teu nome


Paulo Leminski

13 Abril, 2009

era assim:

queres?
queres algo?
queres desejar?
desejas querer?
desejas-me?
desejas querer-me?
queres desejar-me?
queres querer-me?
queres que te deseje?
desejas que te queira?
queres que te queira?

quanto me
queres?
quanto me
desejas?

ah quanto te quero
quando te quero
quando me queres...




Ana Hatherly

Foto: Mão alada. Rancho Queimado.

10 Abril, 2009

de delicadeza me construo


De delicadeza me construo.
Trabalho umas rendas
Uma casa de seda para uns olhos duros.
Pudesse livrar-me da maior espiral
Que me circunda e onde sem querer me reconstruo!
Livrar-me de todo olhar que quando espreita, sofre
O grande desconforto de ver além dos outros.
Tenho tido esse olhar. E uma treva de dor
Perpetuamente.
Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.


Hilda Hilst

Foto: Vermelhos. Florianópolis.

08 Abril, 2009

tattoo


quero que o tempo
tatue em meu corpo
todas as marcas
que tenho direito
quero poder
contar a história
de cada ruga
cada cicatriz
saber o porquê
de cada fio
de cabelo branco
de cada sulco
de meus prantos



Claudia Félix

Foto: imPerfeita. Florianópolis.

03 Abril, 2009


tudo claro
ainda não era o dia
era apenas um raio


Paulo Leminski

31 Março, 2009

Alicerce & Alvenaria


Quem sabe a força que tem
Carrega as pedras que pode
E constrói a casa que lhe cabe
Não nega a vida por medo
Nem mesmo diante da morte
Quem não se entrega fácil
Sabe que a lida é difícil
Mas a vontade, inabalável
Quando o sonho é indelével
Blindado o coração que pulsa
E quente o sangue vermelho
Velho o que não se renova
Incrustado em seu escafandro
Conformismo é camisa-de-força
É forca para os derrotistas
Solidão não é igual a liberdade
Nenhum caminho é possível
Quando não se tem para onde ir
O som do silêncio ensurdece
No meio da calada da noite
A flecha de fogo e o azougue
Riscando a floresta escura
É dura a luta de cada dia
E doce o que há no horizonte

Tiago Moreira*

Foto: Simples e bello, como a vida deveria. Rancho Queimado.

30 Março, 2009

suerte de amor


La buena suerte a veces es tan pródiga
que nos pone un amor entre las manos
puede ser que nos tome de sorpresa
y el corazón se quede estupefacto

los flacos sentimientos se atropellan
siempre hay uno que ofrece su respaldo
pero el amor de estreno sólo quiere
elegirlo como algo necesario

ese amor se hace un hueco en la memoria
y comulga con glorias del pasado
despacio nos seduce / nos invade
y se convierte en algo cotidiano

se extiende como el sol en las mejillas
y también lo guardamos en los párpados
abiertos o cerrados / sólo nuestros /
vigilantes de todos los presagios

con el amor / el magico habitante
la suerte hace de su sueño un canto
y antes que deje de sonar / lo asimos
y nos vamos con él y con su abrazo


Mario Benedetti

Foto: Boa sorte. Rancho Queimado.


* enquanto dormias na tarde de domingo, sentei-me no banco defronte à horta da pousada e entre alfaces, rosas e patos li este poema: tão Bello.

24 Março, 2009

as time goes by


You must remember this,
a kiss is just a kiss,
A sigh is just a sigh,
the fundamental things apply,
as time goes by.

And when two lovers woo,
they still say "I love you,"
on that you can rely,
no matter what the future brings,
as time goes by.

Moonlight and love songs,
never out of date,
hearts full of passion,
jealousy and hate,
woman need man,
and man must have his maid,
that no one can deny.

It's still the same old story, a fight for love and glory,
a case of do or die,
the world will always welcome lovers,
as time goes by.


Herman Hupfeld


Foto: Quando 'O beijo' pousou na ilha. CIC. Florianópolis.

19 Março, 2009

mar


e a noite se faz
mais uma vez
densa bruma
e uma vez mais
a palavra cala
na boca seca
e novamente
a lágrima rasga
a face dura
e agora ainda
a cabeça lateja
lateja
e tudo parece tão
novo
de novo

e o dia se fez
mais uma vez
tensa pluma
e uma vez mais
a mão escreveu:
mar


Claudia Félix

Foto: Contigo. Lagoinha do Norte. Florianópolis.

18 Março, 2009

não sei


Não sei... se a vida é curta
ou longa demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita.

Alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que acaricia,
desejo que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja curta, nem longa demais
mas que seja intensa
verdadeira, pura...

Enquanto durar.


Cora Coralina



Foto: Depois da aula de fotografia. UDESC. Florianópolis.

...


s
s
s
c
h
h:


{silêncio}


é tempo de semear
esperanças


...


Claudia Félix

Foto: O pátio do tempo. UDESC. Florianópolis.

16 Março, 2009




Todos eles traziam sacolas, que pareciam bem pesadas. Amarraram bem seus cavalos e um deles adiantou-se em direção a uma rocha e gritou: "Abre-te, cérebro!"



Arnaldo Antunes


Foto: Em Playland. Florianópolis.

10 Março, 2009

pelo tempo que durar


Nada vai permanecer
No estado em que está
Eu só penso em ver você
Eu só quero te encontrar
Geleiras vão derreter
Estrelas vão se apagar
E eu pensando em ter você
Pelo tempo que durar
Coisas vão se transformar
Para desaparecer
E eu pensando em ficar
A vida a te transcorrer
E eu pensando em passar
Pela vida com você


Marisa Monte e Adriana Calcanhotto
Foto: Cena final de "Tempos modernos". By internet.

Toda felicidade, amado. Eternamente.

04 Março, 2009

um rosto


tirar dos ombros
o peso de herói
olhar pro céu
e ver somente estrelas
olhar pras mãos
e ver somente calos
olhar no espelho
e ver somente um rosto
nem resto de deus
nem nada
apenas um rosto
vincado pela vida


Claudia Félix
Foto: A onda quando volta. Campeche. Florianópolis.

02 Março, 2009

água viva



Para me refazer e te refazer volto a meu estado de jardim e sombra, fresca realidade, mal existo e se existo é com delicado cuidado. Em redor da sombra faz calor de suor abundante. Estou viva. Mas sinto que ainda não alcancei os meus limites, fronteiras com o quê? sem fronteiras, a aventura da liberdade perigosa. Mas arrisco, vivo arriscando. Estou cheia de acácias balançando amarelas, e eu que mal e mal comecei a minha jornada, começo-a com um senso de tragédia, adivinhando para que oceano perdido vão os meus passos de vida. E doidamente me apodero dos desvãos de mim, meus desvarios me sufocam de tanta beleza. Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca.


Clarice Lispector

Foto: Colhendo flores, tecidos e cores. By Vinha. Campeche. Florianópolis.

26 Fevereiro, 2009

Corazón coraza


Porque te tengo y no
porque te pienso
porque la noche está de ojos abiertos
porque la noche pasa y digo amor
porque has venido a recoger tu imagen
y eres mejor que todas tus imágenes
porque eres linda desde el pie hasta el alma
porque eres buena desde el alma a mí
porque te escondes dulce en el orgullo
pequeña y dulce
corazón coraza

porque eres mía
porque no eres mía
porque te miro y muero
y peor que muero
si no te miro amor
si no te miro

porque tú siempre existes dondequiera
pero existes mejor donde te quiero
porque tu boca es sangre
y tienes frío
tengo que amarte amor
tengo que amarte
aunque esta herida duela como dos
aunque te busque y no te encuentre
y aunque
la noche pase y yo te tenga
y no.



Mario Benedetti

Foto: Da janela do banheiro da casa amarela. Imbé. RS.

III


sou o que restou após a guerra

ajudei na morte de meus pais
tomei a vida de meus irmãos
estrangulei o menino que fui
cuspi na face do anjo
fiz meu filho ser aborto

paguei todo preço possível
para suportar o grande peso
e te buscar neste momento


Pedro Bertolino

Foto: Red house. Ribeirão da Ilha. Florianópolis.

19 Fevereiro, 2009

fueguitos

"Un hombre del pueblo de Neguá, en la costa de Colombia, pudo subir al alto cielo. A la vuelta, contó. Dijo que había contemplado, desde allá arriba, la vida humana. Y dijo que somos un mar de fueguitos. "El mundo es eso, reveló, un montón de gente, un mar de fueguitos". Cada persona brilla con luz propia entre todas las demás. No hay dos fuegos iguales. Hay fuegos grandes y fuegos chicos y fuegos de todos los colores. Hay gente de fuego sereno, que ni se entera del viento, y gente de fuego loco, que llena el aire de chispas. Algunos fuegos, fuegos bobos, no alumbran ni queman; pero otros arden la vida con tantas ganas que no se puede mirarlos sin parpadear, y quien se acerca, se enciende".

Eduardo Galeano


* Trecho colhido do e-mail de Martin para nosotras!

18 Fevereiro, 2009

algumas fotos de outros tempos

14 Fevereiro, 2009

Estados de ánimo

Unas veces me siento
como pobre colina
y otras como montaña
de cumbres repetidas.

Unas veces me siento
como un acantilado
y en otras como un cielo
azul pero lejano.

A veces uno es
manantial entre rocas
y otras veces un árbol
con las últimas hojas.
Pero hoy me siento apenas
como laguna insomne
con un embarcadero
ya sin embarcaciones
una laguna verde
inmóvil y paciente
conforme con sus algas
sus musgos y sus peces,
sereno en mi confianza
confiando en que una tarde
te acerques y te mires,
te mires al mirarme.



Mario Benedetti
Foto: Adoráveis dias. Lagoa da Conceição. Florianópolis.

13 Fevereiro, 2009

amavisse


Não haverá um equívoco em tudo isso?
O que será em verdade transparência
Se a matéria que vê, é opacidade?
Nesta manhã sou e não sou minha paisagem
Terra e claridade se confundem
E o que me vê
Não sabe de si mesmo a sua imagem.
E me sabendo quilha castigada de partidas
Não quis meu canto em leveza e brando
Mas para o vosso ouvido o verso breve
Persistirá cantando.
Leve, é o que diz a boca diminuta e douta.
Serão leves as límpidas paredes
Onde descansareis vosso caminho?
Terra, tua leveza em minha mão.
Um aroma te suspende e vens a mim
Numas manhãs à procura de águas.
E ainda revestida de vaidades, te sei.
Eu mesma, sendo argila escolhida
Revesti de sombra a minha verdade.

Amavisse - Hilda Hilst

Foto: Leveza. Sambaqui. Florianópolis.


11 Fevereiro, 2009

palavras



amo as palavras doces
bem meladas
cremosas lambuzadas
aquelas sem as quais
nenhum amor se faria

amo as palavras sérias
bem exatas
difíceis esperadas
aquelas sem as quais
nosso ser não seria

amo as palavras sinceras
bem trêmulas

doloridas deliciosas
aquelas sem as quais
viver não valeria

amo as palavras diretas
bem certeiras
lacinantes radicais
aquelas sem as quais
toda esperança morreria


Claudia Félix


Imagem: José Datrino, o Profeta Gentileza. By Internet.

09 Fevereiro, 2009

sem sinal da cruz

(...)

Repara-se nas pessoas ao lado a adivinhar se alguma delas experimenta o mesmo torpor silencioso de mastigar as palavras e não digeri-las ou cuspi-las. O amante está sempre com uma palavra na boca, lapidada, aperfeiçoada, repensada, reescrita, que não sairá para passear com o mar. Não sairá numa confidência. Ficará como semente de uva, pequena demais para ser colhida do chão, mas de aspereza reconhecível para uma língua com sede.

O amor é infantil. Uma alegria de se entornar pela casa e se despreocupar com a arrumação. Ser adulto estafa, a recolher os brinquedos escondidos na areia sem ao menos ter brincado. O amor é insuportavelmente tolo. Quem não é tolo não permite carícias.

O amor não cansa de caminhar como a luz, não cansa de barulho como a chuva, não cansa de repetir as lembranças como o fogo.

Morro por amor, mas não morro o amor.

...
Fabricio Carpinejar
Foto: Entardeceres. Campeche. Florianópolis.
{09 de fevereiro de 2009}

06 Fevereiro, 2009

dos beijos

Pretendem alguns casuístas que não há ordem nem tempo fixo para o abraço, o beijo e a pressão da ponta dos dedos ou o arranhar das unhas, pois tudo isto, em regra, deve fazer-se antes da relação carnal, ao passo que os golpes e a emissão de sons acompanham geralmente o referido acto. Na opinião de Vatsyayana, tudo é bom em qualquer momento, dado que no amor não há ordem nem tempo.

(...) Relativamente a uma jovem, usam-se três tipos de beijos: O beijo nominal. O beijo palpitante. O beijo patético. Quando uma jovem toca somente a boca do seu par, sem que adiante mais nada, pratica o beijo nominal. Quando uma jovem, arredando todo o pudor, toca o lábio que lhe prime a boca e, portanto, move o lábio inferior, que não o superior, dá-se o beijo palpitante. Quando uma jovem toca o lábio do amado com a língua e, cerrando os olhos, agarra nas mãos dele, executa o beijo patético.

Outros autores descrevem mais quatro tipos: O beijo recto. O beijo inclinado. O beijo voltado. O beijo apertado. Quando os lábios dos dois amantes se põem directamente em contacto uns com os outros, trata-se do beijo recto. Quando as cabeças dos dois amantes se inclinam sobre a outra e eles se beijam, nesta posição, diz-se que é o beijo inclinado. Quando um dos dois parceiros volta o rosto do outro, tomando-Ihe a cabeça ou o queixo, que beija, verifica-se o beijo voltado. Enfim, quando o lábio inferior é pressionado com força, realiza-se o beijo apertado. Há também uma quinta espécie, chamada o beijo grandemente apertado. Pratica-se tomando o lábio inferior entre dois dedos; então, após tocá-lo com a língua, comprimem-se os lábios fortemente contra ele.

Poderíamos alongar-nos acerca da arte de beijar, dos meios de que se serve, das situações que provoca. Todavia, muitas das suas maneiras apenas são comuns a pessoas de intenso erotismo. Refira-se ainda o beijo do lábio superior pelo homem, quando ela, por seu turno, lhe beija o lábio inferior; o beijo em pleno, de lábios comprimindo fortemente os daquele que não tem bigode; o combate da língua, em que esta toca os dentes, a língua e o palato que se lhe oferecem, e também a pressão dos dentes, dele ou dela, sobre a boca dela ou dele.

Por via de regra, o beijo é de quatro espécies, que são: o moderado, o contraído, o forte e o suave, conforme a parte do corpo sobre que incide. Quando ela, depois de olhar o rosto do amante adormecido, o beija com intenção ou desejo, diz-se aqui do beijo que incentiva. Quando ele está alheio, ou amuado, ou absorto nas suas ocupações, e é beijado pela amante, chama-se ao ósculo o beijo que distrai. Quando o homem, ao chegar tarde a casa, beija a sua bela adormecida, demonstrando assim que a deseja, dá-lhe o beijo que desperta. Em tais circunstâncias, ela poderá fingir que dorme, tanto para o observar como para corresponder segundo a própria vontade. Quando se beija a imagem de alguém reflectida num espelho ou na água, ou ainda a sombra que se projecta numa parede, trata-se do beijo da declaração. Quando se beija uma criança que se tem sentada nos joelhos, uma pintura, uma imagem, etc., na presença da pessoa amada chama-se, neste caso, o beijo de transmissão. Quando à noite, no teatro ou numa reunião de casta, um homem beija o anelar da mulher que está diante de si, levantada, ou o dedo do pé, se sentada; ou quando ela, afagando o corpo do amante, deita a cabeça nas suas pernas, ao jeito de querer dormir, de modo a inflamá-lo, e lhe beija a perna ou o dedo grande do pé, consuma-se o beijo demonstrativo.

A propósito destas variedades, eis o seguinte versículo: «Seja o que for que um amante faça ao outro, este deve retribuir, trocando beijo por beijo, carícia por carícia, pancada por pancada.»


Kama-sutra.


Foto: Luxúria. By LRMarques. Florianópolis.

03 Fevereiro, 2009

Perspectiva

Gosto de quem gosta
Das coisas sem querer prendê-las
Gosto de quem gosta, como eu
De ficar namorando, ficar se beijando, olhando
Para as estrelas
Assim vou caminhando
Por esta vida
Assim eu vou andando
Por esta imensa avenida
Vivendo não sei bem por quê
Sempre numa grande expectativa
ahh
E avenida em russo quer dizer perspectiva
E avenida em russo quer dizer perspectiva
Sendo assim eu lhe pergunto
Se você não quer ser
A minha avenida, a minha ávida vida
A minha expectativa, a minha perspectiva
A minha expectativa, a minha perspectiva
Por exemplo
Perspectiva é avenida
Avenida Nevsky: perspectiva Nevsky
Avenida Getúlio Vargas: perspectiva Getúlio Vargas
Avenida Brasil: perspectiva Brasil
Avenida Paulista: perspectiva Paulista
É.... glasnost... transparência
E abertura é perestroika
Karandash é lápis e babushka é vovó
E camarada, ah camarada é tovarish
E paz, paz é mir mir mir
Gosto de quem gosta...
Para a rua, tambores e poetas
Ainda há palavras lindas
U R S S – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ó tu, União Soviética, Cristo entre as nações
Para o júbilo, o planeta ainda está imaturo
É preciso arrancar alegria lá do futuro
Morrer nesta vida não é difícil
O difícil é a vida e seu ofício
E os demais todo mundo sabe
O coração tem moradia certa
Bem aqui no meio do peito
Mas é que comigo
A anatomia ficou louca
E sou todo, todo, todo, mas todo...
Coração



Jorge Mautner


Foto: Avenida. By Poeminha e LR Marques. Porto Alegre.

26 Janeiro, 2009

Lejanías

Qué pasará si unimos lejanías
con este aquí de barbas en remojo
si al menos ese azar fuera tangible
y la erosión del hoy menos punzante

dicen que lo mejor siempre está lejos
lejos hacia adelante o hacia atrás?
hay que tener el tiempo entre las manos
para poder usarlo y admitirlo

las lejanías dóciles no sierven
sólo figurarán como leyendas
lo remoto se pierde en los relevos
y sólo quedan humos y neblinas

hay que tener presente que algún día
tanbién seremos lejos para otros
remembranza talvez / si fuimos dignos
pero nada sabremos de ese premio

entre lejos y lejos rueda el mundo
y cada vez es más indescifrable
no nos anestesiemos con su magia
y disfrutemos de lo que está acerca


Lejanías - Mario Benedetti *


Foto: Nos muros da cidade. Lagoa da Conceição - Florianópolis.

*Obrigada, Martin, por trazer novos versos deste uruguaio que tanto amo.

09 Janeiro, 2009

Semeadura

Nós vamos prosseguir, companheiro
Medo não há
No rumo certo da estrada
Unidos vamos crescer e andar
Nós vamos repartir, companheiro
O campo e o mar
O pão da vida, meu braço, meu peito
Feito pra amar.

Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar

Nós vamos semear, companheiro
No coração
Manhãs e frutos e sonhos
Pr'um dia acabar com esta escuridão
Nós vamos preparar, companheiro
Sem ilusão
Um novo tempo, em que a paz e a fartura
Brotem das mãos

Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
En la pampa, mi poncho a volar
Esteira de vento e luar
Vento e luar

Minha guitarra, companheiro
F ala o idio ma das águas, das pedras
Dos cárceres, do medo, do fogo, do sal
Minha guitarra
Tem os demônios da ternura e da tempestade
É como um cavalo
Que rasga o ventre da noite
Beija o relâmpago
E desafia os senhores da vida e da morte
Minha guitarra é minha terra, companheiro
É meu arado semeando na escuridão
Um tempo de claridade
Minha guitarra é meu povo, companheiro

Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar.



Semeadura - Vitor Ramil


Foto: Tessituras. Florianópolis.

27 Novembro, 2008

Amar elo



A minha casa aqui é pintada por fora de amarelo-manteiga e tem persianas em verde-forte; fica, rodeada de sol, numa praça, onde também há um parque verde com plátanos, aloendros, acácias. Por dentro é pintada de branco e o chão é de azulejos vermelhos. E por cima, o céu de azul luminoso. Lá dentro posso com efeito viver e respirar e pensar e pintar.



Vincent Van Gogh



Foto: Nos muros da cidade. João Paulo. Florianópolis.

24 Novembro, 2008

Como diria Odair


a felicidade
é uma coisa tão difícil
tão difícil de conseguir
mas de vez em quando ela chega
quando menos se espera
quando nada se espera
ela vem
e fica
um pouco
aqui comigo
por algumas horas minutos segundos

como já falou
o sábio poeta Odair
ouve aí
felicidade não existe
só momentos felizes
no mais são cruzes e crises
e sempre que eu tô feliz
logo vem um infeliz
se fingindo de amigo
querendo apagar o meu sorriso
que é o mais próximo do paraíso
que eu consigo


Zeca Baleiro

Foto: Lights in Playland. Florianópolis.


18 Novembro, 2008

Libertação



Que eu saia de mim
e corte com ânsia todos os mares
e chegue a todas as praias sem fadiga.
Que eu esteja nas grandes planícies, nas montanhas, no lodo
e no tumulto, na orla dos lagos e dos abismos.
Que eu saia de mim
e fique nos caminhos o meu hálito.
Que todos os clamores e todos os risos
e também todos os silêncios repercutam em minha orelha
e a minha língua se torne clara e ardente como o sol
e todos me entendam, os meninos, os pobres.
Que eu saia de mim
e com a soma de minhas libertações
e a massa de minhas vitórias sobre mim
me volte leve e humana
para as angústias e os problemas dos homens.
Que eu saia de mim
e jamais interrogue sobre o princípio, sobre o fim,
mas sempre diante do universo
meu espírito agnóstico seja um olho comovido.
Que eu saia para sempre de mim
e seja uma nova criatura
em que as coisas e os seres fiquem grudados.
Que eu não volte para mim
que para sempre me perca
e da criatura salva
todos sejam impregnados.


Maura de Senna Pereira

Foto: Pela grama verde. Imbé. RS.

09 Novembro, 2008

La pregunta


Amor, una pregunta
te ha destrozado.

Yo he regresado a ti
desde la incertidumbre con espinas.

Te quiero recta como
la espada o el camino.

Pero te empeñas en guardar un recodo
de sombra que no quiero.

Amor mío,
compréndeme,
te quiero toda,
de ojos a pies, a uñas,
por dentro,
toda la claridad, la que guardabas.

Soy yo, amor mío,
quien golpea tu puerta.
No es el fantasma, no es
el que antes se detuvo
en tu ventana.
Yo echo la puerta abajo:
yo entro en toda tu vida:
vengo a vivir en tu alma:
tú no puedes conmigo.

Tienes que abrir puerta a puerta,
tienes que obedecerme,
tienes que abrir los ojos
para que busque en ellos,
tienes que ver cómo ando
con pasos pesados
por todos los caminos
que, ciegos,
me esperaban.

No me temas,
soy tuyo,
pero
no soy el pasajero ni el mendigo,
soy tu dueño,
el que tú esperabas,
y ahora entro
en tu vida,
para no salir más,
amor, amor, amor,
para quedarme.


Pablo Neruda


Foto: O pouso do beija-flor. Cacupé. Florianópolis.

04 Novembro, 2008

Samba de uma nota só


Eis aqui este sambinha feito numa nota só.
Outras notas vão entrar, mas a base é uma só.
Esta outra é conseqüência do que acabo de dizer.
Como eu sou a conseqüência inevitável de você.

Quanta gente existe por aí que fala tanto e não diz nada,
Ou quase nada.
Já me utilizei de toda a escala e no final não sobrou nada,
Não deu em nada.
E voltei pra minha nota como eu volto pra você.
Vou contar com uma nota como eu gosto de você.
E quem quer todas as notas: ré, mi, fá, sol, lá, si, dó.
Fica sempre sem nenhuma, fique numa nota só.



Samba de Uma Nota Só - Composição: Tom Jobim / Newton Mendonça


Foto: Na primeira vez que pisei. Copacabana. Rio de Janeiro.

27 Outubro, 2008

Zora

Más allá de seis ríos y tres cadenas de montañas surge Zora, ciudad que quien la ha visto una vez no puede olvidarla más. Pero no porque deje, como otras ciudades memorables, una imagen fuera de lo común en los recuerdos. Zora tiene la propiedad de permanecer en la memoria punto por punto, en la sucesión de sus calles, y de las casas a lo largo de las calles, y de las puertas y de las ventanas en las casas, aunque sin mostrar en ellas hermosuras o rarezas particulares. Su secreto es la forma en que la vista se desliza por figuras que se suceden como en una partitura musical donde no se puede cambiar o desplazar ninguna nota. El hombre que sabe de memoria cómo es Zora, en la noche, cuando no puede dormir imagina que camina por sus calles y recuerda el orden en que se suceden el reloj de cobre, el toldo a rayas del peluquero, la fuente de los nueve surtidores, la torre de vidrio del astrónomo, el puesto del vendedor de sandías, el café de la esquina, el atajo que va al puerto. Esta ciudad que no se borra de la mente es como una armazón o una retícula en cuyas casillas cada uno puede disponer las cosas que quiere recordar: nombres de varones ilustres, virtudes, números, clasificaciones vegetales y minerales, fechas de batallas, constelaciones, partes del discurso. Entre cada noción y cada punto del itinerario podrá establecer un nexo de afinidad o de contraste que sirva de llamada instantánea a la memoria. De modo que los hombres más sabios del mundo son aquellos que conocen Zora de memoria.

Italo Calvino - Las ciudades invisibles


Foto: Poeminha distante. By LR Marques. Sambaqui. Florianópolis.

24 Outubro, 2008

É meu este poema ou é de outra?


É meu este poema ou é de outra?
Sou eu esta mulher que anda comigo
E renova a minha fala e ao meu ouvido
Se não fala de amor, logo se cala?

Sou eu que a mim mesma me persigo
Ou é a mulher e a rosa escondidas
(Para que seja eterno o meu castigo)
Lançam vozes na noite tão ouvidas?

Não sei. De quase tudo não sei nada.
O anjo que impulsiona o meu poema
Não sabe da minha vida descuidada.

A mulher não sou eu. E perturbada
A rosa em seu destino, eu a persigo
Em direção aos reinos que inventei.



Hilda Hilst

Foto: Lá longe. Rainha do Mar. RS.

12 Outubro, 2008

.X.



Que te demores, que me persigas
Como alguns perseguem as tulipas
Para prover o esquecimento de si.

Que te demores
Cobrindo-me de sumos e tintas
Na minha noite de fomes
Reflete-me. Sou teu destino e poente.
Dorme.

Hilda Hilst





Foto: Tulipa By Poeminha. Florianópolis

02 Outubro, 2008

Desencanto



Eu faço versos como quem chora
De desalento , de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue , volúpia ardente
Tristeza esparsa , remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre.
Qualquer forma de amor vale a pena!!
Qualquer forma de amor vale amar!

Manuel Bandeira - Desencanto


Foto: Ilha e continente. Florianópolis.

22 Setembro, 2008

Como se ama a una verdad


Tú me conociste cuando andaba
Encendiendo estrellas del candor,

Flores de la noche que alumbraban
Mi sonrisa sin dolor.

Aún dormía con mi osito triste
Y aún me estremecía la oscuridad.
Yo era así, y así tú me quisiste
Como se ama una verdad.

Ahora sigo igual de enamorada
De los rumbos que soñaba ayer,
Pero ya no estás para mis alas.
Ahora sólo puedo a tu querer.

¿qué será del sol que va a los parques?
¿qué será del mar sin mi pasión?
¿qué será la luz si llegas tarde?
¿qué será de todo sin mi amor?

Adorabas cada travesura
Y perrito lobo, mi ratón,
Mis zapatos viejos, mis pinturas,
Mi única y feliz canción.

Y todo es aburrido si no hay todo.
Han hecho jardín, le falta flor.
Olvidar el mundo no es buen modo
De tener y dar amor.

Porque sigo igual de enamorada
De los rumbos que soñaba ayer,
Pero ahora ya no estás para mis alas.
Ahora sólo puedo a tu querer.

¿qué será del sol que va a los parques?
¿qué será del mar sin mi pasión?
¿qué será la luz si llegas tarde?
¿qué será de todo sin mi amor?

Y todo es aburrido si no hay todo.
Han hecho jardín, le falta flor.
Olvidar el mundo no es buen modo
De tener y dar amor.


Silvio Rodriguez
Foto: Flor de romã. Florianópolis.

20 Setembro, 2008

Poema 18 - Aquí te amo...


Aquí te amo.
En los oscuros pinos se desenreda el viento.
Fosforece la luna sobre las aguas errantes.
Andan días iguales persiguiéndose.

Se desciñe la niebla en danzantes figuras.
Una gaviota de plata se descuelga del ocaso.
A veces una vela. Altas, altas estrellas.

O la cruz negra de un barco.
Solo.
A veces amanezco, y hasta mi alma está húmeda.
Suena, resuena el mar lejano,

Éste es un puerto.
Aquí te amo.

Aqui te amo y en vano te oculta el horizonte.
Te estoy amando aún entre estas frías cosas.
A veces van mis besos en esos barcos graves,
que corren por el mar hacia donde no llegan.
Ya me veo olvidado como estas viejas anclas,
son más tristes los muelles cuando atraca la tarde.
Se fatiga mi vida - inútilmente hambrienta.
Amo lo que no tengo. Estás tú tan distante.
Mi hastío forcejea con los lentos crepúsculos.
Pero la noche llega y comienza a cantarme.
La luna hace girar su rodaje de sueño.

Me miran con tus ojos las estrellas más grandes.
Y como yo te amo, los pinos en el viento,
quieren cantar tu nombre con sus hojas de alambre.



Pablo Neruda - Veinte poemas de amor y una canción desesperada


Foto: Entardecer em Cacupé. Florianópolis. By Poeminha.

11 Setembro, 2008

Canto da amante amada




Ainda trazendo sol e sal
além do ímpeto e da esperança
chegou o Amado.
É alvo o leito e o instante é alvo
porque desatado
de tudo o que antes
turvava o amor.
Nada conspurca
incompleta ou ensombra
meu festim da entrega
e o total carinho pela noite alta
me faz tão sagrada
que me julgo a terra.
Ah, ei sei que - um dia - estarei derramada
em cinzas pelas companheiras rosas
mas - antes - rosas brotarão em mim.






Maura de Senna Pereira in "País de Rosamor"

Foto: Rosa de tecido do Shopping. Florianópolis. By Poeminha.

04 Setembro, 2008

la calma el amor el odio la calma la calma

Bueno bueno es un país
donde el olvido donde pesa el olvido
suavemente sobre mundos sin nombre
ahí callan la cabeza la cabeza es muda
y se sabe no no se sabe nada
muere el canto de las bocas muertas
hizo su viaje sobre la arena
no hay nada que llorar

mi soledad la conozco bueno la conozco mal
tengo tiempo eso es lo que me digo tengo tiempo
pero qué tiempo hueso ávido el tiempo del perro
del cielo que palidece sin cesar mi grano de cielo
del rayo que asciende ocelado temblando
de las micras de los años en tinieblas

quieren que vaya de A a B no puedo
no puedo salir estoy en un país sin huellas
sí sí es una cosa hermosa la que tienen ahí una cosa
muy hermosa
qué es no me hagan más preguntas
espiral polvo de instantes qué es lo mismo
la calma el amor el odio la calma la calma


Samuel Beckett

Foto: Parque em Buenos Aires - Argentina. By Poeminha.

02 Setembro, 2008

Devo viver entre os homens...


Devo viver entre os homens
Se sou mais pêlo, mais dor
Menos garra e menos carne humana ?
E não tendo armadura
E tendo quase muito de cordeiro
E quase nada da mão que empunha a faca

Devo continuar a caminhada?
Devo continuar a te dizer palavras
Se a poesia apodrece
Entre as ruínas da casa que é a tua alma?
Ai, luz que permanece no meu corpo e cara:
Como foi que desaprendi de ser humana?

Hilda Hilst

Foto: Árvore castigada de vento em Rainha do Mar - RS. By Poeminha.

22 Agosto, 2008

El día que me quieras

Acaricia mi sueño
el suave murmullo
de tu suspirar.
Como ríe la vida
si tus ojos negros
me quieren mirar.
Y si es mío el amparo
de tu risa leve
que es como un cantar,
ella aquieta mi herida,
todo, todo se olvida.
El día que me quieras

la rosa que engalana,
se vestirá de fiesta
con su mejor color.
Y al viento las campanas
dirán que ya eres mía,
y locas las fontanas
se contarán su amor.
La noche que me quieras

desde el azul del cielo,
las estrellas celosas
nos mirarán pasar.
Y un rayo misterioso
hará nido en tu pelo,
luciernagas curiosas que verán
que eres mi consuelo.
El día que me quieras

no habrá más que armonía.
Será clara la auroray alegre el manantial.
Traerá quieta la brisa
rumor de melodía.
Y nos darán las fuentes
su canto de cristal.
El día que me quieras

endulzará sus cuerdas
el pájaro cantor.
Florecerá la vida
no existirá el dolor.

La noche que me quieras


Carlos Gardel - El dia que me quieras

Foto: Feira de Santelmo - Buenos Aires. By Poeminha.

07 Agosto, 2008

hagamos un trato



...

es tan lindo
saber que usted existe
uno se siente vivo
y cuando digo esto
quiero decir contar
aunque sea hasta dos
aunque sea hasta cinco
no ya para que acuda
presurosa en mi auxilio
sino para saber
a ciencia cierta que usted sabe
que puede contar conmigo.


Mario Benedetti - Hagamos un trato

...

Para minha filha que retorna de viagem do sul do mundo
Foto: Vendendo guarda-chuvas. Porto Alegre - RS. By Poeminha.

04 Agosto, 2008

De todos los objetos




De todos los objetos, los que más amo
son los usados.
Las vasijas de cobre con abolladuras y bordes aplastados,
los cuchillos y tenedores cuyos mangos de madera
han sido cogidos por-muchas manos.
Éstas son las formas
que me parecen más nobles.
Esas losas en torno a viejas casas,
desgastadas de haber sido pisadas tantas veces,
esas losas entre las que crece la hierba, me parecen
objetos felices.

Impregnados del uso de muchos,
a menudo transformados, han ido perfeccionando sus
formas y se han hecho preciosos
porque han sido apreciados muchas veces.

Me gustan incluso los fragmentos de esculturas
con los brazos cortados. Vivieron
también para mí.
Cayeron porque fueron trasladadas;
si las derribaron, fue porque no estaban muy altas.
Las construcciones casi en ruinas
parecen todavía proyectos sin acabar,
grandiosos; sus bellas medidas
pueden ya imaginarse, pero aún necesitan
de nuestra comprensión. Y, además,
ya sirvieron, ya fueron superadas incluso.
Todas estas cosas me hacen feliz.


Bertold Brecht - 1932


Foto: Uma das Vênus - Rio de Janeiro, RJ. By Poeminha

12 Julho, 2008

Bello...



— Dime una ciudad más— insistía.
—...Desde allí el hombre parte y cabalga tres jornadas entre gregal y levante...— proseguía diciendo Marco, y enumeraba nombres y costumbres y comercios de gran número de tierras. Su repertorio podía considerarse inagotable, pero ahora le toco a él rendirse. Era el alba cuando dijo: Sir, ahora te he hablado de todas las ciudades que conozco.
— Queda una de la que no hablas jamás.
Marco Polo inclinó la cabeza.
— Venecia— dijo el Kan.
Marco sonrío.
— ¿Y de qué otra cosa crees que te hablaba?
El emperador no pestañeó.
—Sin embargo, no te he oído nunca pronunciar su nombre.
Y Polo:
— Cada vez que describo una ciudad digo algo de Venecia.
— Cuando te pregunto por otras ciudades, quiero oírte hablar de ellas. Y de Venecia cuando te pregunto por Venecia.
— Para distinguir las cualidades de las otras, debo partir de una primera ciudad que permanece implícita. Para mi es Venecia.
— Deberías entonces empezar cada relato de tus viajes por la partida, describiendo Venecia tal como es, toda entera, sin omitir nada de lo que recuerdes de ella.
El agua del lago estaba apenas encrespada; el reflejo de cobre del antiguo palacio de los Sung se desmenuzaba en reverberaciones centelleantes como hojas que flotan.
— Las imágenes de la memoria, una vez fijadas por las palabras, se borran —dijo Polo—. Quizás tengo miedo de perder a Venecia toda de una vez, si hablo de ella. O quizás, hablando de otras ciudades, la he ido perdiendo poco a poco.


Italo Calvino - Las ciudades invisibles
Foto: Ponte Velha. Florianópolis. By Poeminha.